quarta-feira, janeiro 10, 2007

Mar de Sophia

Acabei de ouvir pela 1a vez o novo CD da Maria Bethânia, "Mar de Sophia". Mais uma vez, mais do que inspirada, ela me (nos) presenteia com uma jóia. Da capa e encarte aos arranjos, dos vocais às poesias, tudo é delicado, sensível, tudo emociona.

Já faz tempo que considero a Bethânia minha cantora preferida. Há alguns anos atrás, me lembro que a achava um pouco difícil, com algumas músicas lindas e outras não tão bacanas assim. Mas nada como o tempo. Devargazinho fui conhecendo-a melhor e deixando-me encantar.

O primeiro CD que comprei foi o Âmbar, de 1996. Comprei por causa da música que dá nome ao disco, que tocava no rádio (na finada e saudosa Musical FM, de Sampa - ou a rádio já havia fechado nessa época?), e por causa de uma entrevista que vi naquele programa de entrevistas da Leda Nagle na TVE RJ (acho que o nome é Sem Censura). A Bethânia contou que toda a arte da capa do disco tinha sido feita pelo Gringo Cardia e que eles tinham como inspiração a Índia, que o Gringo havia visitado o país e trazido uma série de tecidos, todos eles com fios dourados. Os tecidos foram usados para confeccionar uma capa especial, um material promocional a ser distribuído para críticos e gente do meio. Essas capas eram únicas, cada uma tinha uma confecção própria, não mais que algumas dezenas de CDs. Lembro que fiquei morrendo de inveja dessa "gente do meio", daí que resolvi conferir o CD. Só a música título já valia o disco inteiro ("Tá tudo aceso em mim, tá tudo assim tão claro, tá tudo brilhando em mim"), mas as outras 13 também eram ótimas. Daí que por conta do Âmbar passei a comprar mais discos dela, a buscar discos antigos, não ficando sem comprar qualquer novo lançamento.

Acho-a um dos artistas mais sensíveis não só do Brasil como do mundo. Ela não é acomodada, sempre arrisca (seja gravando canções de domínio público, de compositores desconhecidos ou mesmo sucessos sertanejos - "é o amoooor!"), os encartes dos discos são sempre muito cuidadosos, com fotos lindas e um tema base. Não entendo como algumas pessoas podem comprar CDs piratas e se privar de ter acesso aos encartes originais de qualquer CD, quanto mais os dela (infelizmente os CDs hoje estão caríssimos!). Poucos artistas tem uma presença de palco tão grande como ela.

Esse novo CD tem um tema central: o mar. São canções sobre pescadores, marujos, Iemanjá, beijos do mar na areia, o céu espelhado, o vento, tempestades e calmaria, o raio de Inhansã, a lua cheia, as praias desertas (que continuam esperando por nós dois). Entre as músicas ela declama algumas poesias, todas elas de uma poeta portuguesa, nascida no Porto, Sophia de Mello Breyner (que conheci agora graças ao CD). O encarte também é belíssimo. Abaixo um dos poemas.

Mar sonoro - Sophia de Mello Breyner
"Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim"

Concordo com Bethânia, esse é o Mar de Sophia.
Zeca

Nenhum comentário: